Eflatunpınar — fonte sagrada hitita nas margens do lago Beysehir
Imagine: da terra jorra uma fonte cristalina, fria mesmo sob o calor da Anatólia, e à sua volta, há três mil anos, os mestres hititas construíram uma piscina monumental em pedra traquítica, decorada com deuses e espíritos da montanha dispostos em ordem hierárquica. Eflatunpınar (tur. Eflatunpınar) — um dos poucos monumentos cultuais hititas preservados em paisagem aberta: sem telhados sobre a cabeça, sem cercas ao redor. Apenas pedra, água e céu. Eflatunpınar está situado no Parque Nacional do Lago Beysehir, a 85 km a oeste de Konya, na região histórica da Pisídia. O monumento consta da lista preliminar da UNESCO desde 2014 como «Fonte Sagrada Hitita» (Hittite Sacred Water Temple). Este é o ponto mais a sudoeste da expansão hitita na Ásia Menor — a fronteira onde a grande civilização deixou um dos seus últimos sinais na pedra.
História e origem de Eflatunpınar
A civilização hitita atingiu o seu apogeu nos séculos XIV–XIII a.C., abrangendo grande parte do planalto da Anatólia. Foi precisamente neste período — na Idade do Bronze Tardia — que o monumento de Yeflatunpinar foi erigido nas margens do lago Beysehir. A comunidade científica turca data-o do século XIV a.C., ou seja, da época dos antecessores mais próximos ou contemporâneos do rei hitita Tudhaliya IV (que reinou aproximadamente entre 1237 e 1209 a.C.).
O local não foi escolhido por acaso: da terra brotam aqui duas fontes naturais de água limpa e fria. Para os hititas, a água era sagrada — simbolizava a ligação com o mundo subterrâneo dos deuses e dava vida. A monumental piscina-reservatório, revestida com blocos talhados de traquito (rocha vulcânica), era simultaneamente uma construção prática e um espaço religioso: o culto à fonte sagrada («arimatta» nos textos hititas) ocupava um lugar importante no panteão hitita.
Os investigadores identificaram Eflatunpınar com a «fonte da bacia de Arimata», mencionada no tratado entre o rei hitita Tudhaliya IV e o rei Kurunta de Tarhuntassa. Este tratado chegou até nós numa placa de bronze, encontrada durante as escavações em Hattusa (atual Boğazköy) — a capital hitita. A correspondência exata do topónimo com o monumento continua a ser objeto de discussão, mas esta versão é considerada a mais convincente.
Na Idade Média, durante o período seljúcida, o monumento ganhou uma nova interpretação: passou a ser associado a Aflatun — o nome arabizado do filósofo grego Platão. Daí o nome «Eflatunpınar» — «Fonte de Platão» ou «Fonte Violeta» (o segundo significado da palavra «eflatun» em turco é «lilás»). O monumento, criado mil anos antes de Platão, recebeu inesperadamente o seu nome simplesmente porque Konya (Iconium), na época seljúcida, era associada à filosofia grega.
O local foi mencionado pela investigadora da Universidade de Oxford, Lucie Nixon, e baseia-se nos trabalhos de F.U. Haslak do início do século XX. Ainda não foram realizadas escavações sistemáticas completas neste local. A localização junto à margem do lago corresponde exatamente, em termos de latitude, a outro importante monumento na margem oposta — as ruínas do Kubadabad-saray, erguido pelos seljúcidas no século XIII.
Arquitetura e o que ver
O principal monumento de Eflatunpınar é uma piscina-reservatório de pedra com cerca de 7 metros de largura e 4 metros de altura, construída com 14 blocos de traquito. O traquito é uma rocha vulcânica extraída na região: resistente, mas bastante fácil de trabalhar. A alvenaria é monumental, com um encaixe meticuloso dos blocos.
Imagens em relevo no monumento principal
Na fachada do monumento principal está esculpida uma representação hierárquica do panteão hitita. Na fila inferior — cinco deuses das montanhas com as suas características saias escamadas: era assim que os hititas representavam os espíritos das montanhas. Acima deles — o «casal divino» sentado: figuras masculina e feminina que, segundo os investigadores, personificam o deus da tempestade Tarhunnu e a deusa do sol Arinnitu — os deuses supremos do panteão hitita. As mesmas figuras, ao que tudo indica, repetem-se também nas paredes laterais (sul e leste) do monumento.
Fragmentos escultóricos
Durante a inspeção da piscina, foram descobertas entre os detritos esculturas de animais deitados — segundo os investigadores, trata-se de representações de leões, veados e touros. Estas completam o conhecido conjunto de animais em pares, encontrado aqui anteriormente. Também foram encontrados na bacia pequenos vasos cerâmicos votivos — muito semelhantes aos descobertos nos lagos sagrados de Hattusa (Boğazköy) — e um alfinete de bronze. Trata-se de uma prova direta da função cultual do monumento: as pessoas ofereciam presentes ao deus da fonte.
Característica única: figuras frontais
Eflatunpınar é um dos poucos locais conhecidos onde os hititas representavam figuras humanas em posição frontal (de frente), e não de perfil, como é habitual na maioria dos relevos hititas. Este facto é destacado separadamente pela ArchaeoNews, que considera esta característica uma particularidade excecional do monumento.
Paisagem e parque nacional
O monumento está localizado dentro do Parque Nacional do Lago Beysehir. A fonte continua a jorrar da terra: a água é fria e cristalina. A distância entre a margem do lago e o monumento é de cerca de 10 km. Ao redor, encontram-se canaviais e uma paisagem anatólia tranquila. As pontes de madeira que conduzem ao monumento foram adicionadas pelos funcionários do Museu de Konya no âmbito de um projeto de melhoria — as opiniões dos turistas sobre esta decisão divergem.
Factos e lendas interessantes
- Eflatunpinar é o ponto mais a sudoeste da expansão hitita. Para além desta fronteira, não existe mais nenhuma arquitetura monumental hitita. Trata-se, literalmente, da «fronteira do império», gravada na pedra.
- O monumento tem o nome de Platão (Eflatun — Aflatun, versão arabizada do nome «Platão»), embora tenha sido criado cerca de mil anos antes do filósofo grego. A explicação é simples: na época seljúcida, Konya era associada à cultura e sabedoria gregas, e o nome do sábio mais famoso «aderou» ao misterioso monumento antigo.
- No século XV, ocorreu uma batalha junto às muralhas de Eflatunpınar: as tropas de Akköyunlu, que apoiavam o beilico de Karaman contra o Império Otomano, enfrentaram as forças otomanas sob o comando do príncipe Mustafa — filho de Mehmed, o Conquistador. Os otomanos saíram vitoriosos. A batalha ocorreu ainda antes da Batalha de Otlukbeli, em 1473.
- Os vasos votivos e o alfinete de bronze encontrados na bacia são idênticos aos objetos dos lagos sagrados de Hattusa. Trata-se de uma «ligação material» direta entre os dois centros cultuais hititas mais importantes.
- A fonte jorra da terra até hoje, três mil anos depois. A água fria que viram aqueles que ofereciam sacrifícios ao deus Tarhunna é a mesma.
Como chegar
Eflatunpınar fica a 85 km a oeste de Konya, dentro dos limites do Parque Nacional do Lago Beysehir. A cidade mais próxima é Beyşehir (a cerca de 30 km do monumento). Há autocarros de Konya para Beyşehir (~1,5 horas); de Beyşehir até ao monumento, é melhor apanhar um táxi ou alugar um carro.
O itinerário mais conveniente para viajantes da Rússia: voo para Konya (KYA) a partir de Istambul ou Hızlı Tren a partir de Ancara (~1 h 40 min), seguido de aluguer de carro em Konya e viagem por conta própria. A estrada até Eflatunpınar é pitoresca: o lago Beysehir é um dos maiores lagos de água doce da Turquia. A entrada no parque nacional é, normalmente, paga; verifique as tarifas atuais no local. Há estacionamento nas proximidades do monumento.
Dicas para o viajante
Planeie a visita a Eflatunpınar como parte de um dia: o monumento em si é pequeno, a visita demora 30–45 minutos. Mas a estrada e a paisagem justificam a viagem — o lago Beysehir e as montanhas à sua volta são belos em qualquer condição meteorológica. Combine com uma visita a Beysehir: lá encontra-se a mesquita do século XIII Esrefoglu Camii (incluída na lista preliminar da UNESCO) e o castelo na ilha no meio do lago.
A melhor época é a primavera (abril–maio) ou o início do outono (setembro–outubro): o verão quente torna a viagem menos confortável e, no inverno, o parque nacional pode estar parcialmente fechado. Leve algo para beber: não há nenhum estabelecimento comercial junto ao monumento. Os fotógrafos apreciarão a luz da manhã — os relevos dos deuses hititas são mais bem visíveis sob iluminação angular baixa. Venha com um conhecimento básico sobre o panteão hitita: assim, as imagens heráldicas na pedra passarão de contornos enigmáticos a deuses concretos, com os seus nomes e funções. É precisamente esta transformação de «apenas uma pedra» em «história viva» que faz de Yeflatunpinar um dos monumentos mais tranquilos e profundos de toda a Anatólia Central.